''Capitão América: Admirável Mundo Novo'', ''Thunderbolts'' e ''Quarteto Fantástico: Primeiros Passos'' foram as obras que a Marvel lançou nos cinemas, em 2025 (Foto: Montagem/Divulgação)
Se, há algum tempo, lançar um filme da Marvel era praticamente garantia de bilheteria estrondosa, a realidade parece ser outra, nos dias de hoje. Devido a fatores diversos, muitas pessoas perderam o interesse de acompanhar o chamado ''Multiverso Cinematográfico da Marvel'' — e uma das maiores provas disso é o fato de que nenhum dos três filmes que a empresa lançou, em 2025, chegou a entrar no Top 10 Bilheterias do ano.
O lançamento que mais chegou perto disso foi ''Quarteto Fantástico: Primeiros Passos''. Esse filme era uma grande aposta da Marvel Studios, mas dividiu opiniões do público e, consequentemente, arrecadou uma bilheteria de apenas $ 521 milhões, terminando o ano na 12ª posição do ranking citado. Não são números ruins, mas, se tratando de um filme da Marvel Studios, eles estão bem abaixo do esperado.
''Capitão América: Admirável Mundo Novo'', por sua vez, arrecadou $ 415 milhões e terminou 2025 ocupando o 15º lugar, no ranking de maiores bilheterias do ano. Diferente do que alguns pensam, a bilheteria fraca deste filme não se deve ao fato d'o Capitão América não ser mais Steve Rogers (personagem de Chris Evans): na minissérie ''Falcão e o Soldado Invernal'', de 2021, a introdução de Sam Wilson (Anthony Mackie) como o sucessor do Capitão América original havia sido muito boa, mas a primeira aparição deste novo Capitão nas telas de cinema acabou sendo prejudicada por um roteiro fraquíssimo que não vai além do “arroz com feijão”.
Porém, curiosamente, o filme da Marvel que menos atraiu dinheiro, em 2025, foi ''Thunderbolts*'' — este longa-metragem protagonizado por Florence Pugh arrecadou apenas $ 382 milhões, mesmo sendo o melhor dos três filmes já citados nesta matéria. Se ele tivesse sido lançado há uns sete anos, certamente teria sido um grande sucesso de bilheteria, mas a quantidade exagerada de lançamentos que a Marvel entregou de 2021 pra cá gerou uma certa fadiga, até nos fãs mais devotos desse multiverso cinematográfico. O engajamento do público foi tão pequeno que, logo na segunda semana de exibição, a Marvel revelou, em suas redes sociais, que, no final do filme, os “Thunderbolts” se tornam os “Novos Vingadores” — porém, esse spoiler não alterou muito a bilheteria do longa e ainda estragou uma das surpresas mais legais que os espectadores teriam assistindo ele.
Os filmes de 2025 que ocuparam o Top 10 bilheterias do ano foram*:
1° lugar: ''Ne Zha 2: O Renascer da Alma” ---> arrecadou aproximadamente $ 2 bilhões e 150 milhões
2° lugar: ''Zootopia 2'' ---> arrecadou aproxidamente $ 1 bilhão e 422 milhões, até o momento (ainda está em cartaz)
3° lugar: ''Lilo & Stitch'' ---> arrecadou aproximadamente $ 1 bilhão e 38 milhões
4° lugar: ''Minecraft'' ---> arrecadou aproximadamente. $ 958 milhões
5° lugar: ''Jurassic World: Recomeço'' ---> arrecadou aproximadamente $ 869 milhões
6° lugar: ''Avatar: Fogo e Cinzas'' ---> arrecadou aproximadamente $ 859 milhões, até o momento (ainda está em cartaz)
7° lugar: ''Demon Slayer: Castelo Infinito'' ---> arrecadou aproximadamente $718 milhões
8° lugar: ''Como Treinar Seu Dragão'' ---> arrecadou aproximadamente $ 636 milhões
9° lugar: ''F1: O Filme'' ---> arrecadou aproximadamente $ 631 milhões
10° lugar: ''Superman'' ---> arrecadou aproximadamente $ 616 milhões
(*dados do site Box Office Mojo)
A última vez que a Marvel havia falhado ao tentar emplacar, pelo menos, um filme entre as 10 Maiores Bilheterias de um ano X foi em 2009 (isso porque o único longa baseado em HQ’s da Marvel que foi lançado naquele ano foi o fraquíssimo “X-Men Origens: Wolverine”, da Fox). Se formos analisar de 1999 a 2008 e de 2010 a 2024, perceberemos que o Top 10 anual de bilheterias só não incluiu filmes com o selo Marvel nos três anos em que nenhum longa-metragem do tipo foi lançado nos cinemas (ou seja, 1999, 2001 e 2020).
O que gerou a queda da Marvel?
Depois que o excelente Vingadores- Ultimato” (2019) arrecadou quase 3 bilhões de dólares e recebeu aclamação praticamente unânime, os executivos da Marvel Studios se encheram de confiança e acharam que nada poderia reverter aquela fase sensacional. Foi com esse pensamento em mente que Kevin Feige (Presidente da Marvel Studios) decidiu aumentar drasticamente a frequência de lançamentos da empresa: a partir de 2021, a narrativa transmidiática do universo Marvel começou a incluir, não somente filmes, mas também várias séries e minisséries que foram lançadas através do streaming Disney+.
O calendário da Marvel Studios, em 2021, foi composto por ''Wandavision'' (minissérie), ''Falcão e o Soldado Invernal'' (minissérie), ''Loki'' (primeira temporada da série), ''Viúva Negra'' (filme), ''Shang Chi e a Lenda dos Dez Anéis (filme), ''What If?'' (primeira temporada da série), ''Os Eternos'' (filme), ''Gavião Arqueiro'' (minissérie) e ''Homem Aranha: Sem Volta Pra Casa'' (filme). É claro que o fato de NOVE estreias terem acontecido em UM ÚNICO ANO foi algo que começou a desgastar a imagem do selo, mas, na época, muita gente relevou a quantidade excessiva, pois quase todos os trabalhos apresentados foram bons ou excelentes. Porém, em 2022, o lançamento dos lamentáveis ''Doutor Estranho no Multiverso da Loucura'' (filme), ''Mulher Hulk'' (minissérie), ''Ms.Marvel'' (minissérie) e ''Thor: Amor e Trovão'' (filme) deixou claro que o ritmo frenético de estreias estava comprometendo a qualidade das obras que tinham de ser entregues — e, nos três anos seguintes, o público voltou a perceber isso, quando as igualmente horríveis ''Homem Formiga e a Vespa: Quantumania'' (filme), ''As Marvels'' (filme), ''Echo'' (minissérie), ‘’Invasão Secreta” (minissérie), Coração de Ferro'' (minissérie), ''Demolidor: Renascido'' (série) e ''Capitão América: Admirável Mundo Novo'' (filme) estrearam.
Vale lembrar que outra coisa que respingou negativamente no MCU foi a péssima qualidade da grande maioria dos filmes que a Sony Pictures fez de personagens da Marvel. Por mais que “Morbius” (2022), “Kraven, O Caçador” (2024), “Madame Teia” (2024) e a trilogia “Venom” (2018-2024) não pertençam ao Universo Marvel que é comandado pela Disney, muitos desinformados acabaram associando esses filmes pavorosos ao MCU.
É claro que nem todas as obras audiovisuais que vieram com o selo ''Marvel'', entre 2022 e 2025, foram ruins: as minisséries ''Cavaleiro da Lua'' (2022) e ''Agatha desde Sempre'' (2024), a segunda temporada de ''Loki'' (2023) e os filmes ''Pantera Negra: Wakanda Para Sempre'' (2022), ''Guardiões da Galáxia: Volume 3'' (2023), ''Homem Aranha Através do Aranhaverso'' (2023/Sony Pictures), ''Deadpool & Wolverine'' (2024) e ''Thunderbolts'' (2025) acabaram sendo grandes alívios para os fãs de super-heróis, mas, mesmo assim, foram exceções em meio a uma maioria de lançamentos fraquíssimos. Sem falar que muitas dessas obras boas foram ignoradas pelo público, devido ao segundo problema que o aumento na frequência de estreias causou para os espectadores: ficou MUITO MAIS DIFÍCIL acompanhar o andamento dos eventos do MCU (Marvel Cinematic Universe), visto que 99% dos filmes/séries situados neste universo estão conectados a obras previamente lançadas — para entender o filme X, é necessário assistir antes a minissérie Y, o filme Z... e nem todas as pessoas estão dispostas a isso.
A introdução do ''Multiverso'' também trouxe alguns problemas de narrativa: é claro que, por um lado, isso permitiu que personagens de universos cinematográficos paralelos da Marvel pudessem aparecer no MCU (resultando em algumas aparições especiais incríveis, como as dos Homens-Aranhas de Tobey Maguire e Andrew Garfield, em ''Homem Aranha- Sem Volta Pra Casa''), mas, por outro lado, o surgimento das conexões multiversais também diminuiu muito o peso de qualquer coisa que aconteça na trama — agora, se algum herói da Marvel morre, basta ir até a dimensão paralela mais próxima buscar uma variante idêntica desse personagem (foi o que fizeram com a Gamora, em ''Vingadores: Ultimato'' e com o Wolverine, em ''Deadpool & Wolverine'').
A confissão pública de Kevin Feige
O plano original da Marvel Studios era fazer com que o próximo filme dos Vingadores incluísse somente os heróis que continuaram na equipe após os acontecimentos de ''Ultimato'' e os heróis que foram introduzidos ao público de lá para cá — além disso, o vilão do filme seria Kang (personagem que foi introduzido na série ''Loki'' e no filme ''Homem Formiga e a Vespa: Quantumania''). Porém, nem Kang e nem a grande maioria dos heróis que estrearam recentemente no MCU foram bem-aceitos pelo público — e, para piorar, o ator Jonathan Majors (que interpretava Kang) teve a imagem manchada, após agredir fisicamente uma ex-namorada, em março de 2023. Isso tudo fez com que Kevin Feige decidisse mudar completamente o roteiro/planejamento do 5° filme dos Vingadores: a presença de Kang foi descartada, vários personagens que não estavam inicialmente previstos na trama foram inseridos, a estreia foi adiada (de maio de 2025 para dezembro de 2026) e o título do longa-metragem deixou de ser ''Vingadores: Dinastia Kang'' para se tornar ''Vingadores: Doutor Destino''.
Robert Downey Jr, no momento exato em que ele foi anunciado como Doutor Destino (Foto: Jesse Grant/ Getty Images)
A fim de garantir a boa bilheteria do filme, Feige tomou as decisões mais apelativas possíveis: além de ter escalado nomes como Chris Evans, Hugh Jackman, Ian Mckellen, Patrick Stewart e James Marsden para retornar aos seus respectivos papéis de Capitão América, Wolverine, Magneto, Professor Xavier e Ciclope após anos afastados, o presidente da Marvel Studios ainda escolheu Robert Downey Jr (ator que viveu o Homem de Ferro, de 2008 a 2019) como o intérprete do vilão Doutor Destino. Ninguém tem a menor dúvida de que Robert irá se sair muito bem nesse novo papel, mas, para a grande maioria dos fãs, essa escalação se equivale à Marvel assinando um vergonhoso atestado de desespero que confirma abertamente que, sem os atores que já haviam ''deixado o barco'', o MCU não se sustenta. O universo cinematográfico da Marvel falhou ao tentar se renovar — e ''Vingadores: Doutor Destino'' será a confissão pública desse fato.
