Morreu, nesta segunda-feira (17/11), o cantor e compositor Jards Macalé. Ele tinha 82 anos de idade e estava internado em um hospital do Rio de Janeiro, tratando um caso de broncopneumonia.
Nascido na Barra da Tijuca e criado em Ipanema, Jards começou a sua carreira profissional em 1964, quando Elizeth Cardoso gravou uma de suas composições (no caso, a ''Meu Mundo É Seu''). Pouco depois disso, ele foi chamado para tocar violão no espetáculo de resistência ''Opinião'' — que começou a ser realizado por cantores como Zé Kéti, João do Vale, Nara Leão e Maria Bethânia, logo após o Golpe Militar de 1964. A partir dali, Jards passou a se destacar na cena musical brasileira e estabeleceu contatos importantes com nomes que acabariam se tornando muito influentes.
Durante a segunda metade da década de 1960, Jards dirigiu alguns shows de Maria Bethânia, assinou as trilhas dos filmes ''Macunaíma'' e ''O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro'', se apresentou no 4º Festival Internacional da Canção (1969) e viu a sua composição ''Amo Tanto'' ser gravada por Nara Leão. Porém, ele só ganhou reconhecimento a nível nacional a partir do início da década de 1970 — quando as suas músicas ''Movimento dos Barcos'', ''Vapor Barato'' e ''Mal Secreto'' se tornaram hits, ao serem gravadas por grandes intérpretes do tropicalismo (Maria Bethânia gravou a primeira e Gal Costa, as outras duas). Além disso, nessa mesma época, Jards também lançou o seu próprio disco de estreia (''Jards Macalé'', de 1972) e trabalhou como violonista/arranjador em álbuns antológicos como ''Le Gal'' (Gal Costa, 1970) e ''Transa'' (Caetano Veloso, 1972).
''Vapor Barato'' foi escrita por Jards Macalé e Wally Salomão, mas repercutiu nas rádios através da interpretação de Gal Costa (e, posteriormente, da banda O Rappa):
Ao longo das últimas seis décadas, nomes de peso como Maria Bethânia, Gal Costa, Caetano Veloso, O Rappa, Baco Exu do Blues, Frejat, Clara Nunes, Wally Salomão, João Donato, Nara Leão, Otto, Luiz Melodia, Tim Bernardes, Rogério Skylab e Gilberto Gil já trabalharam ao lado de Jards Macalé e/ou gravaram alguma das músicas dele. Embora o disco ''Jards Macalé'', de 1972, sempre tenha permanecido como o trabalho mais aclamado da carreira solo do artista, ele ainda lançou outros 15 álbuns de estúdio, nos anos seguintes — e alguns deles trouxeram faixas clássicas como ''Imagens'', ''Anjo Exterminado'', ''Soluços'', ''Poema da Rosa'', ''Olho de Lince'' e ''Coração Bifurcado''. Além disso, o músico carioca realizou mais contribuições para o cinema nacional, seja compondo trilhas ou trabalhando como ator em filmes como ''Amuleto de Ogum'' (1974), ''Tenda dos Milagres'' (1977) e ''Big Jato'' (2015).
Mesmo assim, Jards Macalé nunca fez tanto sucesso comercial quanto Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Gal Costa, Tom Zé ou Os Mutantes (os seis nomes mais populares do movimento tropicalista, indiscutivelmente). Porém, ele nunca se importou muito com isso — na verdade, Jards declarou, em diversas entrevistas, que não se considerava membro do tropicalismo, pois se via como um representante da ''contracultura brasileira'' e, na visão dele, a Tropicália acabou, eventualmente, se rendendo ao modus operandi da Indústria Cultural.
Jards preferia brilhar fora dos holofotes do mainstream e se recusava a enquadrar a sua arte experimental em rótulos ou padrões comerciais. Por esse motivo, acabou ganhando o apelido de ''anjo torto da MPB''.
