A cinebiografia ''Michael'' está sendo exibida nos cinemas do mundo inteiro desde terça-feira (21/04), mas muitas pessoas estão criticando o fato de que ela simplifica demais a vida de Michael Jackson. Infelizmente, o diretor Antoine Fuqua e o roteirista John Logan optaram por seguir uma abordagem chapa-branca que não se aprofunda em vários fatos complexos e arranha apenas a superfície do Rei do Pop.
Embora este longa-metragem conte poucas mentiras para o público, ele peca, ao omitir diversas informações que são essenciais para que se haja um entendimento a respeito do artista biografado. Com isso, Michael acabou sendo representado como uma figura unidimensional, sem nenhum dos problemas psicológicos que, infelizmente, guiaram toda a sua vida.
Decidi, então, escrever um fact-checking de 8 informações que o longa-metragem de Antoine Fuqua passou. Garanto que vocês, leitores, terminarão este texto com uma visão bem mais profunda de Michael Jackson do que a que o filme transmite.
Quando criança, Michael Jackson sofria punições físicas do pai?
Sim, isso é FATO.
Quando Joe Jackson descobriu o talento musical de seus filhos homens, ele criou o grupo The Jackson 5, com o objetivo de lucrar em cima disso. Desde criança, Michael demonstrava ser o mais talentoso e carismático dos irmãos Jackson, então ele era o principal alvo das cobranças de Joe.
O patriarca da família chegava a assistir ensaios e apresentações ao vivo do The Jackson 5 com um cinto na mão, para que Michael soubesse que iria apanhar, caso desafinasse em algum momento ou errasse um ou outro passo de dança.
Foi por causa dessa criação violenta que Michael acabou se tornando um adulto com um perfeccionismo extremo e uma auto-cobrança exagerada - se, por um lado, isso foi bom para a carreira musical do Rei do Pop, foi PÉSSIMO para o psicológico dele (afinal, foi por causa desses traços de personalidade que Michael fez dezenas de cirurgias plásticas ao longo da vida e ficava extremamente estressado quando fazia turnês, por exemplo). Além disso, o fato de Joe não ter permitido que Michael aproveitasse a infância na hora certa acabou fazendo com que o cantor se tornasse um adulto com comportamentos patologicamente infantis.
Este filme fez um bom trabalho, na hora de demonstrar o autoritarismo e a ganância de Joe Jackson, mas pecou muito, ao omitir as consequências psicológicas que os tratamentos de Joe causaram em Michael.
''Off The Wall'' foi o primeiro disco solo de Michael Jackson?
O filme ''Michael'' dá a entender que, antes do aclamadíssimo ''Off The Wall'' (1979), Michael Jackson nunca havia lançado um disco solo, mas essa informação é FAKE.
''Off The Wall'' foi sim o divisor de águas que fez Michael se tornar muito maior que o The Jackson 5, mas, antes de 1979, o cantor já havia lançado os álbuns ''Got To Be There'' (1972), ''Ben'' (1972), ''Music & Me'' (1973) e ''Forever, Michael'' (1975), que não contaram com a colaboração de qualquer um dos demais membros do grupo. Por mais que nenhum desses trabalhos tenha chegado perto de ser um sucesso comercial tão grande quanto ''Off The Wall'', eles tiveram uma repercussão considerável e merecem ser citados.
Sim, isso é FATO.
Em 1984, Michael queimou o couro cabeludo, durante o sexto take de um comercial da Pepsi. As faíscas do palco foram acionadas antes da hora e deixaram o cabelo do cantor em chamas, por cerca de 10 segundos.
Michael realmente foi internado no Brotman Medical Center e ganhou uma compensação de US$ 1,5 milhão da Pepsi, pelo ocorrido (valor que ele doou para o hospital em questão). A partir disso, o cantor começou a usar perucas e fez um implante de cabelo.
No entanto, o filme omite que o período que Michael passou tratando essa queimadura acabou sendo o marco zero do vício dele em analgésicos. Durante essa internação, o Rei do Pop teve contato com vários medicamentos para dormir e acabou gostando demais deles - então, a partir disso, ele começou a utilizá-los recreativamente, até o fim da vida.
Como Michael se exigia demais sempre que fazia turnês, ele tomava esses medicamentos de maneira ainda mais desregrada, quando estava se preparando para shows. O analgésico favorito dele era o Propofol (o cantor chamava esse medicamento de ''leitinho'').
Em 2009, Michael morreu, na época dos ensaios da turnê ''This is It'', devido a uma overdose de Propofol e de diversos ansiolíticos.
Michael Jackson morou com os pais e os irmãos até 1984?
Não, isso é FAKE.
Michael realmente morou na Hayvenhurst House, com os seus pais e os seus irmãos, por bastante tempo. Entretanto, diferente do que aparece no filme, ele saiu de lá em 1981, e não em 1984.
Como o Rei do Pop queria ter a sua independência, ele comprou , em 1981, um apartamento no complexo de Lindbrook (foto) e, lá, começou a morar sozinho, pela primeira vez na vida. Michael residiu nesse local até conseguir comprar Neverland, em 1988.
Michael Jackson comprou um chimpanzé, uma lhama, uma cobra e uma girafa, na época que ele morava na Hayvenhurst House?
Sim, isso é FATO. Ao longo de sua vida, Michael comprou diversos animais exóticos - os primeiros foram: o chimpanzé Bubbles, a lhama Louie, a cobra Muscles e a girafa Jabbar, que ficavam na mansão dos pais dele, em Encino (Califórnia).
Quando Michael se mudou para Neverland, em 1988, todos esses animais foram para lá com ele. Aliás, nesse novo lar, o zoológico particular do cantor aumentou muito - passando, eventualmente, a incluir leões, tigres, elefantes, orangotangos, flamingos e mais girafas.
No entanto, Michael via a posse de animais e bens materiais exóticos como uma maneira de tentar preencher o seu próprio vazio interior - e o filme deveria ter explorado isso melhor.
Michael Jackson não queria fazer a turnê ''Victory'' com o The Jacksons?
Michael não queria fazer, nem a turnê e nem o álbum ''Victory''. Isso é FATO.
Em 1984, Michael Jackson já havia lançado os fenomenais discos solo ''Off The Wall'' (1979) e ''Thriller'' (1982), que fizeram mais sucesso comercial que qualquer trabalho do The Jacksons (''Thriller'', então, foi o álbum mais vendido de todos os tempos).
A carreira solo do Rei do Pop já estava mais do que estabelecida e, há anos, ele queria ter controle total da própria vida artística (sem falar que Michael nunca gostou de fazer turnês, pois esses eram os momentos em que a auto-exigência extrema dele mais lhe causavam desgaste). Porém, nenhum dos demais integrantes do The Jacksons tinha um prestígio tão grande quanto o dele - Randy, Jermaine, Tito, Marlon e Jackie sabiam que, naquele momento, lançar um álbum com Michael e realizar uma turnê ao lado dele atrairia um público gigante.
Depois de muita insistência de seus cinco irmãos e de sua mãe Katherine, Michael aceitou a ideia de gravar o álbum ''Victory'' e realizar turnê homônima, com o The Jacksons, para prestar um favor aos seus familiares. Porém, além de ter entregado apenas três composições para o disco (''Be Not Always'', ''The Hurt'' e ''State of Shock''), o Rei do Pop se opôs a cantar qualquer canção de ''Victory'' nos shows em questão.
Entre julho e dezembro de 1984, os Jacksons caíram na estrada, com o que muitas pessoas chamam de ''a turnê não-oficial do disco Thriller'' - afinal, Michael não havia realizado shows para promover o lançamento de ''Thriller'' e essa turnê final dele com o The Jacksons incluiu sucessos como ''Human Nature'', ''Wanna Be Startin' Something'', ''Billie Jean'' e ''Beat It'', que fazem parte do álbum em questão.
Aliás, quase metade das músicas tocadas naquela turnê eram da carreira solo de Michael - isso porque, àquela altura, o cantor já era muito maior que o próprio The Jacksons. Por mais que o setlist tenha incluído 7 músicas do grupo e 4 músicas solo de Jermaine, as outras 9 músicas vinham do repertório solo de Michael, pois a maior parte do público pagante estava lá para ver o Rei do Pop.
Joe Jackson e o promotor Don King queriam vender cada ingresso por 120 dólares (sendo que, na época, até mesmo nomes como Bruce Springsteen e The Rolling Stones cobravam cerca de 16 dólares por pessoa). Michael se opôs a esse valor alto, acusando Joe/Don de extorsão e ameaçando não subir ao palco, caso esses preço não fosse baixado - a exigência dele foi atendida.
Ao fim da turnê, Michael distribuiu US$ 5 milhões de seu cachê para duas instituições de caridade e uma fundação de pesquisa sobre o Câncer - afinal, diferente dos demais integrantes do The Jacksons, Michael não estava preocupado com dinheiro, naquela época.
Michael Jackson surpreendeu a todos, ao dizer, em cima do palco, que deixaria o The Jacksons?
Sim, por incrível que pareça, isso é FATO.
No dia 9 de dezembro de 1984, durante o show final do The Jacksons em Los Angeles, Michael anunciou publicamente que aquela seria a última apresentação dele como membro do grupo - isso porque o Rei do Pop vivia um péssimo momento com os irmãos: ele estava tão incomodado com o fato de realizar a contragosto a turnê ''Victory'' que mal falava que os demais integrantes do The Jacksons (sequer ficava nos mesmos hotéis que eles).
Os irmãos de Michael já sabiam que ele estava querendo deixar o grupo para se dedicar apenas à carreira solo, mas achavam que o Rei do Pop aceitaria estender um pouco mais a turnê. Quando ele anunciou publicamente que aquele seria a sua última apresentação, todos no palco ficaram surpresos.
Com a saída repentina de Michael, os organizadores desta turnê tiveram que cancelar a ideia de estender a ''Victory Tour'' para os palcos da Europa e da Austrália. Isso, obviamente, acabou piorando ainda mais o clima entre M.J e seus irmãos.
Ou seja, o anúncio público de Michael realmente aconteceu, mas não foi dentro de um cenário tão amistoso quanto o que aparece no filme.
O embranquecimento na pele de Michael Jackson tinha a ver com vitiligo?
Sim, isso é FATO!
Muitas pessoas costumam espalhar o mito de que Michael Jackson teria embranquecido a sua pele voluntariamente, por supostamente sentir ''vergonha de ser negro'', mas a verdade é que já foi comprovado que ele tinha Vitiligo Universal - uma forma extrema de vitiligo, onde a despigmentação afeta de 70% a 100% da melanina.
Michael passou décadas afirmando que tinha orgulho de ser negro e que havia perdido a sua pigmentação devido a essa doença, mas muitas pessoas duvidaram dele - até que, em fevereiro de 2010, o relatório da autópsia do cantor confirmou oficialmente que ele tinha vitiligo universal.
A única mentira do filme, em relação a essa doença de Michael, foi a invenção de que o cantor já sabia que tinha vitiligo, no final da década de 1970 - sendo que a verdade é que o Rei do Pop só foi diagnosticado em 1983 (um ano após o lançamento de ''Thriller'').
Acima, eu compartilhei com vocês uma das raras fotos onde podemos ver com clareza algumas das manchas que o vitiligo universal deixou no corpo de Michael.
