12 filmes recentes que provam que o Cinema Brasileiro vive o seu melhor momento

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O Cinema Brasileiro existe desde 1897 e já passou por diversas fases distintas. Cada uma delas trouxe, pelo menos, alguns longas-metragens que foram extremamente aclamados, mas, de 2024 pra cá, nós vimos filmes nacionais de alta qualidade estreando de maneira mais frequente do que nunca. Por consequência disso, premiações estrangeiras renomadas como o Oscar, o Globo de Ouro e o Critics Choice Awards passaram a dar uma visibilidade maior ao nosso cinema, concedendo prêmios e/ou indicações inéditas a filmes e atores brasileiros. 

Os longas-metragens nacionais que mais ganharam holofotes, nos últimos dois anos, são, obviamente, os multipremiados ''Ainda Estou Aqui'' e ''O Agente Secreto''. Contudo, por mais que ambos sejam filmes ESPETACULARES, eles não são os únicos trabalhos cinematográficos excelentes que vieram do Brasil, recentemente. 

É óbvio que, de 2024 pra cá, também estrearam filmes brasileiros ruins como ''Sílvio'' (2024), ''O Auto da Compadecida 2'' (2024) e ''Sílvio Santos Vem Aí'' (2025). Porém, o cinema DE QUAL PAÍS não possui ''laranjas podres'' em meio às boas?? 

Como esta é a semana em que o Brasil disputará 4 categorias no Oscar, decidi escrever esta matéria especial, listando 12 filmes recentes que provam que o cinema nacional vem nos proporcionando obras excelentes com uma frequência extraordinária. 

Quem assistir a todas essas obras navegará por histórias muito plurais/diversas - ou seja, leitor (a), esta é uma ótima lista para você enviar para aqueles seus amigos que repetem a falácia de que ''o cinema brasileiro é monotemático''. 

P.S: não coloquei os filmes selecionados em ordem de preferência alguma. 



Ainda Estou Aqui (2024)

Disponível na Globoplay 

A minha lista começa com o longa-metragem que trouxe o primeiro Oscar de ''Melhor Filme Internacional'' do Brasil: ''Ainda Estou Aqui'' conta a história real de como o covarde assassinato de Rubens Paiva, durante a Ditadura Militar Brasileira, acabou afetando toda a família dele. Este é um filme capaz de sensibilizar qualquer pessoa que tenha o mínimo de empatia - afinal, o diretor Walter Salles seguiu uma abordagem humana e universal, ao retratar Rubens, não como um mártir político, mas sim como um pai de família que deixou saudades.

O desempenho de Fernanda Torres como a reprimida viúva Eunice Paiva é absurdamente impecável - não à toa, a atriz ganhou o Globo de Ouro e recebeu uma indicação ao Oscar, por essa performance histórica.


Motel Destino (2024)

Disponível na Prime Video e na Globoplay

Karim Aïnouz é, sem sombra de dúvidas, um dos melhores diretores brasileiros da história. Ele já entregou filmes como ''Madame Satã'' (2002), ''O Céu de Suely'' (2006), ''Praia do Futuro'' (2014) e ''A Vida Invisível'' (2019), mas o longa-metragem que considerei apropriado para esta lista é o trabalho mais recente do cineasta cearense: ''Motel Destino''. 

Esta obra de 2024 conta a história de Heraldo (Iago Xavier) -  um criminoso foragido que se refugia em um motel de beira de estrada, para se esconder da polícia e de chefões do crime que o perseguem. Lá, ele é empregado por Dayana (Nataly Rocha) e Elias (Fábio Assunção), que são casados e administram o local juntos. Porém, quando Heraldo começa a se envolver secretamente com Dayana, as coisas começam a ruir para ele. 

Um dos grandes destaques de ''Motel Destino'' é a sua fotografia deslumbrante, que parece vinda de um filme de Pedro Almodóvar. Além disso, a narrativa deste longa-metragem foi muito inspirada em obras dos gêneros noir ou neo-noir - como ''O Destino Bate à Sua Porta'' e ''A Estrada Perdida''. 

Malu (2024)

Disponível na Prime Video


''Malu'' é, certamente, o filme mais intimista desta lista. Ele se passa em poucos cenários e foca nos conflitos geracionais entre a hippie de meia-idade Malu e duas de suas familiares: a sua conservadora mãe Lili e sua despolitizada filha Joana. As três sentem muitas dificuldades para se entender, mas todas elas carregam um passado cheio de traumas e lidam com dificuldades que podem ser amenizadas através de apoio familiar. 

Para criar a personagem-título, o diretor/roteirista Pedro Freire se inspirou totalmente em sua falecida mãe Malu Rocha. A atriz Yara de Novaes se destaca, ao interpretar Malu com muita maestria — porém, os desempenhos incríveis de Juliana Carneiro da Cunha (como Lili) e Carol Duarte (como Joana) também são um show à parte. 

 

Chico Bento e a Goiabeira Maraviósa (2024)

Disponível na Prime Video e no Youtube

No cinema brasileiro, também existem filmes bons com classificação livre para todos os públicos - o melhor exemplo recente disso é ''Chico Bento e a Goiabeira Maraviósa'', que é capaz de agradar a crianças e adultos, na mesma proporção. 

Neste filme, nós vemos Chico Bento representado em live-action pela primeira vez e acompanhamos uma história inédita dele: a trama gira em torno da mobilização que Chico e seus amigos organizam na Vila Abobrinha, quando a construção de uma nova estrada ameaça a goiabeira do fazendeiro Nhô Lau. 

O grande destaque deste longa-metragem é o carisma enorme que Isaac Amendoim esbanja, ao dar vida a Chico Bento. Porém, todos os personagens de Maurício de Sousa que aparecem, aqui, são muito bem-interpretados.

Homem com H (2025)

Disponível na Netflix

Ao longo dos anos, o cinema nacional já produziu diversas cinebiografias de músicos brasileiros, mas ''Homem com H'' é, certamente, a melhor delas! Esse filme  conta a trajetória de Ney Matogrosso, ressaltando a importância dele como um ícone cultural que surgiu em plena Ditadura Militar e foi na contramão de todos os padrões ditados pelo conservadorismo. 

O roteiro de Esmir Filho é extremamente fiel aos fatos, pois o próprio Ney participou ativamente da produção deste longa-metragem: o ex-Secos & Molhados recusou várias versões de roteiro até aprovar a ideal e compareceu às gravações, para ajudar a manter a coerência com o que realmente aconteceu. Além disso, Ney forneceu vocais inéditos para algumas cenas específicas do filme. 


A atuação magistral de Jesuíta Barbosa como Ney Matogrosso é outro ponto forte de ''Homem com H'': mesmo utilizando playback nas cenas de canto, o ator de 34 anos caprichou ao reproduzir os maneirismos do biografado e provou que foi a escolha perfeita para tal papel. 


Manas (2025)

Disponível na Globoplay

Embora o filme ''Manas'' gire em torno de uma protagonista fictícia, ele existe com o propósito de denunciar a triste realidade de muitas moradoras da Ilha de Marajó (Pará). Aqui, acompanhamos Marcielle - uma recém-adolescente que vive em uma comunidade ribeirinha dessa Ilha, convivendo com abuso sexual, tanto de seu próprio pai quanto de tripulantes dos barcos onde ela vende açaí para ajudar a família a sobreviver. Isso tudo acontece, muito graças à postura omissa da mãe de Marcielle perante tais crimes, mas, em determinado momento, a professora da jovem (Dira Paes) começa a perceber que há algo de errado. 

Mesmo sem apresentar cenas gráficas de abuso, ''Manas'' é um soco no estômago de qualquer espectador - isso porque o roteiro do filme e os desempenhos excelentes dos atores constroem um clima tão grande de tensão e desconforto que apelar para ilustrar o óbvio acaba se tornando dispensável. 



Oeste Outra Vez (2025)

Disponível na Prime Video, na Globoplay e no Youtube

Ambientado no interior de Goiás, o faroeste moderno ''Oeste Outra Vez'' conta a história de alguns homens brutos e amargurados que só conseguem lidar com a rejeição assassinando os novos companheiros de suas ex- parceiras. Embora este seja um filme repleto de ação, ele traz várias críticas sutis à masculinidade tóxica que habita em muitos homens.


O Último Azul (2025)

Disponível na Netflix

Se você gosta de obras situadas em realidades distópicas, ''O Último Azul'', certamente, vai acabar lhe agradando: este filme se passa em um Brasil onde as pessoas que completam 80 anos são obrigados a se mudar para uma colônia habitacional, até a morte. Na trama, o Governo está prestes a mudar a idade de corte para 75 anos - e como a protagonista Teresa (Denise Weinberg) é mais velha do que isso e ainda possui sonhos para realizar na vida, ela decide fugir dos agentes que querem a encarcerar. 

Além da excelente atuação de Denise Weinberg e do roteiro inventivo de Gabriel Mascaro e Tibero Azul, este filme também apresenta uma fotografia belíssima e conta com ótimas performances de apoio vindas de Rodrigo Santoro (como o marinheiro Cadu) e Miriam Socorras (como a hippie idosa  Roberta). 

O Filho de Mil Homens (2025)

Disponível na Netflix

Outro filme com Rodrigo Santoro que merece figurar nesta matéria é a adaptação cinematográfica do livro ''O Filho de Mil Homens'', de Valter Hugo Mãe. Assim como o livro, este filme homônimo gira em torno de cinco histórias distintas que acabam se entrelaçando: aqui, acompanhamos um homem solitário de 40 anos que sonha em ser pai, uma anã que é rejeitada afetivamente (mesmo sendo bastante ativa sexualmente), um menino órfão que cresceu em meio aos preconceitos de seu avô, uma mulher que sofre com o fanatismo religioso de sua mãe e um homem gay que é pressionado por sua família a se casar com uma mulher. Trata-se de um belo longa-metragem sobre pessoas renegadas que acabam encontrando conforto na companhia de semelhantes. 

Vale lembrar que a direção de ''O Filho de Mil Homens'' é assinada por Daniel Rezende (diretor de filmes como ''Bingo: O Rei das Manhãs'' e ''Turma da Mônica: Laços''). 



Vitória (2025)

Disponível na Prime Video e na Globoplay

Estrelado pela sempre sensacional Fernanda Montenegro, ''Vitória'' conta a história real de como uma idosa e um jornalista colocaram dezenas de traficantes e milicianos na cadeia, em 2005. 

A grande polêmica em torno de ''Vitória'' é o fato de que, ao contrário de Fernanda Montenegro, a mulher que inspirou este filme era negra. Porém, a escalação da atriz não foi um caso consciente de white-washing: como Joana da Paz corria sérios riscos de vida, depois que delatou pessoas poderosas, a identidade dela só foi revelada ao público geral depois que ela morreu, em fevereiro de 2023 - e, naquela época, o diretor Andrucha Washington já havia terminado de filmar este longa-metragem. 

A Melhor Mãe do Mundo (2025)

Disponível na Netflix 

No longa-metragem ''A Melhor Mãe do Mundo'', acompanhamos a história de uma catadora de recicláveis que começa a morar nas ruas de São Paulo, com os seus dois filhos pequenos, após se cansar da violência doméstica que o marido praticava com ela. Para não causar pânico nos filhos, a protagonista decide fingir que a vida de moradores de rua é apenas uma ''brincadeira que eles estão vivendo''. 

Embora este filme lembre vagamente obras já existentes como “A Vida é Bela” (1997) e “À Procura da Felicidade” (2006), ele acaba se diferenciando, ao focar na figura de uma mulher periférica brasileira. Os dramas da personagem vivida por Shirley Cruz representam a dura realidade de muitas cidadãs do nosso país. 

Além de Shirley Cruz, o elenco de “A Melhor Mãe do Mundo” também conta com Seu Jorge, Rihanna Barbosa, Kauezinho Rodrigues, Katiuscia Canoro, Luedji Luna e Dexter 8º Anjo. 

O roteiro e a direção deste filme, por sua vez, são assinados por Anna Muylaert — a mesma cineasta que nos entregou o clássico “Que Horas Ela Volta?” (2015).


O Agente Secreto (2025)

Disponível nos cinemas e na Netflix

É claro que esta lista também inclui o sensacional ''O Agente Secreto'' — longa-metragem brasileiro que concorre aos Óscares de ''Melhor Filme'', ''Melhor Ator'' (Wagner Moura), ''Melhor Filme Internacional'' e ''Melhor Elenco'', neste domingo (15/03), após ter levado alguns prêmios importantes nos últimos meses.

Assim como ''Ainda Estou Aqui'', ''O Agente Secreto'' se passa durante a Ditadura Militar Brasileira e promove discussões críticas sobre tal período. Porém, as semelhanças entre esses dois filmes param por aqui - afinal, o diretor/roteirista Kleber Mendonça Filho (de ''O Som ao Redor'', ''Aquarius'' e ''Bacurau'') optou por abordar a temática de uma maneira que pouco lembra o filme sobre Rubens Paiva.

''O Agente Secreto'' conta a história de Marcelo - um especialista em tecnologia que se muda para o Recife, após algum tempo morando em São Paulo. No começo do filme, não sabemos bem quem é Marcelo ou o que ele está fazendo no Recife, mas, no decorrer da trama, acabamos descobrindo que o protagonista está se escondendo de assassinos de aluguel, pois peitou um figurão poderoso da Ditadura. 

O excelente roteiro de Kleber Mendonça Filho constrói bem o suspense sobre o passado de Marcelo e resolve esse mistério de maneira bastante clara. Porém, parte do mérito deste filme é a maneira com a qual ele deixa certas dúvidas, intencionalmente, para o público interpretar (a ideia de não entregar as coisas ''de bandeja'' aos espectadores está tão presente em ''O Agente Secreto'' que a própria vigência da Ditadura Militar, em 1977, não é mencionada durante este longa-metragem). 

A inventividade criativa de Kleber também fica evidente nas cenas onde ele cria uma ''história de origem'' para a célebre lenda urbana da ''Perna Cabeluda'' e nas cenas onde ele faz metáforas envolvendo um gato de dois rostos e o filme ''Tubarão''.

Contudo, a pegada de ação frenética e os minutos finais de ''O Agente Secreto'' são os dois fatores que mais fazem o filme de Kleber Mendonça Filho se diferir de ''Ainda Estou Aqui''. Ambos são longas-metragens excelentes que se passam na Ditadura Militar, mas cada um tem a sua aura própria e brilha do seu próprio modo. 


A coluna de Lucas Couto no Lages Diário tem o patrocínio de:

                         

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