Dezembro Vermelho: outra pandemia assusta e leva vidas embora há quase quatro décadas, a Aids

O HIV ainda infecta 1,7 milhão de pessoas a cada ano, e mata cerca de 690 mil.
 
Por DANIELE MENDES DE MELO da ASCOM PML
Lages/SC

Foto: Divulgação

O ano de 2020 jamais irá passar batido na memória de toda a população mundial. A pandemia e os surtos de transmissões pelo novo Coronavírus, gerador da doença Covid-19, aterrorizou os habitantes de quase 200 países, e mesmo depois de praticamente nove meses de uma reviravolta na rotina, o alerta permanece e a espera por uma vacina é cada vez mais acentuada. E paralelamente às preocupações em volta do combate e precaução ao novo Coronavírus, este mês de dezembro marca uma grande mobilização nacional e internacional sobre a prevenção ao vírus HIV, Aids e outras Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs).

Este é o Dezembro Vermelho, que nasceu a partir da lei federal nº: 13.504, publicada no Diário Oficial da União (DOU) em 7 de novembro de 2017, a campanha nacional de prevenção ao HIV/Aids e outras ISTs - o Dezembro Vermelho, bem como suas ações de conscientização. O Dia Mundial de Luta Contra a Aids é celebrado desde 1988 no mundo todo em 1º de dezembro, representado pelo laço vermelho.
 
Em 2020, o tema do Dia Mundial de Luta Contra a Aids é “Solidariedade global, responsabilidade compartilhada”. No Brasil, o Ministério da Saúde (MS) lançou, nesta terça-feira (1º de dezembro), a Campanha de Prevenção ao HIV/Aids, em celebração ao Dia Mundial de Luta Contra a Aids. Com o slogan “HIV/Aids. Faça o teste. Se der positivo, inicie o tratamento”.
 
Este ano, a atenção do mundo está focada na Covid-19 e como as pandemias afetam vidas e meios de subsistência. Em um triste panorama, o HIV ainda infecta 1,7 milhão de pessoas a cada ano e mata cerca de 690 mil.
 
O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, em sua mensagem para o Dia Mundial de Luta Contra a Aids, mencionou que, “com a atenção mundial voltada para a crise da Covid-19, o Dia Mundial contra a Aids é um lembrete da necessidade de manter o foco em outra pandemia global que ainda está conosco há quase 40 anos após seu início”. Gutierres salientou: “Apesar dos sucessos significativos, a emergência da Aids ainda não acabou.” As metas mundiais para 2020 não foram alcançadas em razão da situação epidemiológica pela qual o mundo passa, e foram reestabelecidas para 2021.
 
Cerca de 920 mil pessoas vivem com HIV no Brasil: 89% delas foram diagnosticadas, 77% fazem tratamento com antirretroviral e 94% das pessoas em tratamento não transmitem o HIV por via sexual, por terem atingido carga viral indetectável. Até outubro deste ano, em torno de 642 mil pessoas estavam em tratamento com antirretroviral, enquanto, em 2018, eram 593.594 pessoas em tratamento. Informações do Boletim Epidemiológico HIV/Aids 2020 apresentado pelo Ministério da Saúde (MS) nesta terça-feira (1º de dezembro), em Brasília, divulgado pela Agência Brasil.
 
O Ministério da Saúde (MS) estima que cerca de dez mil casos de Aids foram evitados no país, no período de 2015 a 2019. As pessoas na faixa etária de 25 a 39 anos, de ambos os sexos, com 492,8 mil registros, concentraram o maior número de casos. Nesta faixa etária, 52,4% são do sexo masculino e 48,4% são mulheres, como reporta a Agência Brasil. Já segundo o Boletim Epidemiológico de 2020, quanto aos casos notificados de infecção pelo HIV no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), segundo faixa etária, no período de 2007 a junho de 2020, observou-se que a maioria dos casos de infecção pelo HIV no Brasil encontra-se no grupo de 20 a 34 anos naquele lapso de tempo, com percentual de 52,7% dos casos.
 
Durante a apresentação dos dados nesta terça-feira (1º de dezembro), em Brasília, especialistas comemoram o fato de o Brasil ter registrado queda no número de casos de infecção por Aids nos últimos anos. Desde 2012, houve uma diminuição na taxa de detecção de Aids no país. O número passou de 21,9 casos por 100 mil habitantes, em 2012; para 17,8 casos por 100 mil habitantes em 2019, representando um decréscimo de 18,7%.
 
A taxa de mortalidade em decorrência da Aids também apresentou queda, de 17,1%, nos últimos cinco anos. Em 2015, foram registrados 12.667 óbitos pela doença e em 2019 foram 10.565. Na avaliação do Ministério da Saúde (MS), ações como a testagem para a doença e o início imediato do tratamento, em caso de diagnóstico positivo, são fundamentais para a redução do número de casos e óbitos por Aids.

Foto: Divulgação

Webseminário levará profissionais para uma sala de discussões em Lages e Serra
 
Em Lages, a Prefeitura de Lages, por meio da Secretaria Municipal da Saúde disponibiliza à comunidade os serviços de amparo e prevenção pelo Programa IST/AIDS/HV. Em decorrência da pandemia do novo Coronavírus, em 2020 não será possível a execução de ações práticas como nos outros anos, como atividades de panfletagem e testagem em praças de grande circulação da cidade de Lages, ações em empresas e nem a intensificação de testagem nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs). “Nós então programamos um Webseminário, em que haveria a participação de profissionais da Diretoria de Vigilância Epidemiológica (Dive), da Secretaria de Estado da Saúde, entretanto, também devido à pandemia, o órgão estadual de saúde está sem profissionais disponíveis para tal. Assim, o Programa de Lages, juntamente à Gerência Regional de Saúde de Lages, irá fazer um Webseminário com a participação dos profissionais de Vigilância Epidemiológica e de Atenção Básica de municípios vinculados à Associação dos Municípios da Região Serrana (Amures), em um formato de troca de experiências e em que os profissionais do Programa de Lages e da Regional responderão aos questionamentos dos demais. Provavelmente será após o dia 15 deste mês, aguardando confirmação”, esclarece a coordenadora do Programa IST/AIDS/HV, farmacêutica e bioquímica, Kelly Cavani Cardoso, apontando, ainda: “Temos de lembrar que o Programa de Lages atende toda a região da Amures, sendo referência para consultas médicas e dispensação de medicamentos, além de suporte nas demais áreas como psicologia e serviço social”.
 
Números de Lages melhoram
 
No dia 1º de dezembro também foi lançando o Boletim Epidemiológico de HIV/Aids, em que pode-se observar a queda na taxa de detecção de Aids no país desde 2012.  No ranking dos 100 municípios com mais de 100 mil habitantes, segundo índice composto, que avalia as taxas de detecção geral de HIV e em menores de cinco anos, mortalidade e média do primeiro exame de análise da imunidade do paciente, o município de Lages já ocupou o 9º pior lugar na esfera nacional, no período de 2012 a 2016, 23º no período de 2013 a 2017, 26º no período de 2014 a 2018 e no período de 2015 a 2019 felizmente conseguiu sair da lista dos 100 municípios com os piores índices.
 
De acordo com a coordenadora do Programa IST/AIDS/HV, farmacêutica e bioquímica, Kelly Cavani Cardoso, a melhora nos índices se deve à intensificação das testagens rápidas e ações externas do Programa IST/AIDS/HV de Lages, e à parceria da Atenção Primária à Saúde, através das UBSs nas testagens nos bairros, dos hospitais e maternidades que instituíram a testagem obrigatória nas gestantes e ampliaram a testagem nos pacientes em geral. “Observamos também um aumento na procura por parte da população em realizar, de forma rotineira, os testes para HIV, sífilis e hepatites B e C, sem julgamentos e preconceitos. Além do trabalho constante na quebra de preconceitos quanto ao HIV e em como é importante o portador procurar acompanhamento especializado para iniciar o seu tratamento medicamentoso o quanto antes, mas sempre dentro do seu tempo de aceitação da sua situação de saúde. Já que o portador que faz uso regular da medicação e está com a carga viral (quantidade de vírus circulante) há mais de seis meses indetectável tem um risco insignificante de transmitir o vírus por via sexual, sempre ressaltando a importância da prevenção na transmissão das outras ISTs”, recomenda, enfaticamente, a coordenadora do Programa municipal.


O que a pandemia tem a ver com o HIV?
 
A respeito da relação entre pandemia e prevenção e tratamento da Aids, Kelly Cavani Cardoso comenta que foi observado, de forma empírica, o retorno ao tratamento de grande quantidade de pacientes que estavam em abandono, devido ao receio da coinfecção HIV-Covid 19, contudo, houve uma queda na procura por testagens devido ao isolamento social. O secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde (MS), Arnaldo Medeiros, mencionou que o Sistema Único de Saúde (SUS) manteve seus esforços para garantir o tratamento e o diagnóstico da doença e para que a pandemia não prejudicasse as ações de forma muito incidente. “Garantimos tratamento mesmo em época pandêmica. Não faltou medicação, testes rápidos de HIV ou preservativos. Garantimos a contínua dispensação de medicamentos para o tratamento desse paciente”, reafirmou o secretário.
 
E a imunização?
 
Não existe ainda no mundo uma vacina com eficácia comprovada para evitar o contágio pelo HIV. Há muitos anos os cientistas realizam pesquisas e buscam avanços nestas áreas.  A sífilis e a hepatite C são doenças que têm cura, todavia, também não há vacina.
 
Quanto à hepatite B, esta apresenta vacinação, que é ofertada de forma gratuita pelo SUS. O paciente recebe quatro doses entre zero e seis meses de idade e depois, para quem não tomou durante a infância ou nunca teve a doença, recebe três doses dentro de seis meses, independentemente da idade, e sem reforço.
 
Em Lages, 822 pacientes recebem tratamento de HIV/Aids, 98 da Serra iniciaram seu tratamento em 2020
 
Desde o início do mês, o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) está instável e não permite o acesso aos números notificados atuais. Assim, somente haverá, neste momento, os números de pacientes em tratamento, que são obtidos no sistema de medicamentos (que trata-se de uma ferramenta nacional).
 
Atualmente, totaliza-se 822 pacientes cadastrados em Lages, recebendo tratamento de HIV/Aids, e 337 na região da Amures, exceto os pacientes cadastrados em São Joaquim e Otacílio Costa. Ao todo, 98 pacientes de Lages e cidades pertinentes à Amures iniciaram o seu tratamento em 2020, entre os quais, pacientes com diagnóstico novo e outros com diagnóstico mais antigo, mas que ainda não haviam optado por fazer uso da medicação.
 
Os dados mostram que 186 pessoas (da Serra, maioria de Lages) receberam a profilaxia pós-exposição, sendo 98 por acidente com material biológico, 84 por exposição sexual consentida sem uso de preservativo e cinco por violência sexual. “Atendemos, no Programa IST/Aids/HV, uma média de 537 pacientes por mês, já que em sua maioria eles recebem medicação para dois meses em cada retirada, desde que estejam em dia com o seu acompanhamento”, justifica a coordenadora Kelly.

Foto: Divulgação

Conheça melhor o Programa IST/Aids/HV de Lages

No município de Lages, o Programa IST/AIDS/HV (Infecções Sexualmente Transmissíveis/Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (sigla em português)/Hepatites Virais). Atrelado à Secretaria Municipal da Saúde, atende toda a região da Amures, ofertando consultas médicas com clínico geral capacitado, consultas farmacêuticas e de assistência social e psicologia, dispensação de medicamentos, testagens rápidas, coletas de material para exame para quantificação de carga viral e linfócitos T CD4 (responsáveis pela imunidade do indivíduo), genotipagem (para avaliar casos de resistência viral ao medicamento), insumos de prevenção, palestras, capacitações e ações especiais em praças, empresas e instituições de ensino. O Programa funciona na Praça Leoberto Leal nº: 20, Centro, no prédio da Vigilância Epidemiológica, próximo ao Centro de Triagem para a Covid-19, e durante a pandemia o serviço teve seu horário ampliado para aumentar o acesso e reduzir a aglomeração de pessoas, desta forma, está em funcionamento das 7h às 19h, de segunda à sexta-feira. Os contatos telefônicos são os seguintes: 3251-7647 e 3251-7668.
 
Profilaxia pós-exposição à disposição das pessoas
 
Existe à disposição da população, o serviço de profilaxia pós-exposição, uma medida de prevenção de urgência à infecção pelo HIV, outras Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) e hepatites virais. Compreende o uso de medicamentos para reduzir o risco de adquirir estas infecções. Deve ser utilizada até 72 horas após qualquer situação em que exista risco de contágio, tais como as referidas a seguir:
  • Violência sexual;
  • Relação sexual desprotegida (sem o uso de camisinha ou com rompimento da camisinha), e
  • Acidente ocupacional (com instrumentos perfurocortantes ou contato direto com material biológico)
O Município oferece este dispositivo de forma ampla à população na Vigilância Epidemiológica, das 7h às 19h de segunda a sexta-feira, e 24 horas nos hospitais e na Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) 24 Horas Maria Gorete dos Santos. Há também em outros locais para populações específicas e em quase todos os municípios da Serra Catarinense.  “O Programa se coloca à disposição da população serrana para esclarecer dúvidas, fazer atendimentos relacionados a qualquer tipo de exposição ao vírus e acolher os pacientes que abandonaram o tratamento e gostariam de retomá-lo ou até mesmo aqueles que já fazem o tratamento, mas estão necessitando de um acompanhamento farmacêutico, social ou psicológico, além, é claro, do acompanhamento médico. O tratamento hoje em sua maioria é com apenas dois comprimidos diários e com pouquíssimos relatos de efeitos colaterais. Um tratamento regular confere qualidade de vida ao paciente”, finaliza Kelly Cavani Cardoso.
 
Secretaria da Saúde engajada para transformar a realidade
 
Para alcançar resultados satisfatórios, a prefeitura de Lages, por intermédio do Programa IST/AIDS/HV, dará continuidades aos serviços e tem o planejamento de ampliação da testagem, sensibilização da população para a quebra do preconceito e acolhimento das demandas psicológicas e sociais, tratamento dos portadores e a oferta de insumos de prevenção de forma discreta e sem julgamentos. “Assim como capacitação continuada dos profissionais da Atenção Primária em Saúde, divulgação de informações nos meios de comunicação e atividades voltadas para populações do interior, populações privadas de liberdade e em populações específicas em que a prevalência da doença é maior. Divulgação de informações de saúde sobre a patologia, formas de contágio, tratamento e profilaxia”, complementa Kelly.
 
Uma rede de saúde pronta para acolher e compreender
 
A Atenção Primária em Saúde e a Atenção Especializada possuem papel fundamental em todo o processo. Tanto no fornecimento de insumos de prevenção, nas orientações durante os atendimentos de saúde, no encaminhamento para testagem e na própria testagem rápida no setor, quanto no acompanhamento compartilhado com o Programa de HIV do portador e no acolhimento de outras demandas. Fazem parte desta união equipamentos como as UBSs, Policlínica Municipal Eneo Pacheco de Andrade e o Centro de Estudo e Assistência à Saúde da Mulher (Ceasm).
 
Unidade Dispensadora de Medicamentos
 
Neste ano de 2020, o Programa IST/AIDS/HV de Lages juntamente à Gerência Regional de Saúde, implantou uma Unidade Dispensadora de Medicamentos no município de São Joaquim e uma em Otacílio Costa. Isto foi possível em virtude da parceria dos referidos municípios e empenho das equipes de saúde, já que depois de Lages são os dois municípios da Amures com o maior número de pacientes. “O objetivo foi o de aumentar o acesso destes pacientes ao medicamento e facilitar a busca ativa de faltosos. Ressalte-se que as consultas médias e coletas de exames de rotina para HIV permanecem sendo realizadas em Lages e aqueles pacientes que não se sentem confortáveis retirando a mediação em seus municípios de origem podem continuar se deslocando a Lages bimensalmente para efetuar as retiradas de medicação”, pontua a coordenadora do Programa IST/AIDS/HV, farmacêutica e bioquímica, Kelly Cavani Cardoso.

  

Lages Diário

Comentários