Imigrante pode escolher ter uma vida começada do zero em Lages, onde inúmeros estrangeiros, sobretudo haitianos refugiados, estão trabalhando em diversos segmentos, a exemplo das casas noturnas de lanches.

Por DANIELE MENDES DE MELO da ASCOM PML,
em Lages/SC  

📷 Nathalia Lima / ASCOM PML
Ele é magro, tem pele negra, aparenta ter entre 30 e 35 anos, estatura mediana, cabelos na altura dos ombros, veste jaqueta, calça jeans e chinelos, tem o olhar distante e triste, nenhuma gesticulação, feição desconfiada, mas é tranquilo e sereno. Carrega consigo somente a roupa do corpo, aparentemente umedecida pela garoa, e sua história misteriosa e por enquanto desconhecida. Solitário, o homem com traços faciais marcantes e sotaque estrangeiro arranhado está em situação de permanência e vulnerabilidade ao lado de uma das vigas debaixo da ponte do rio Ponte Grande, bem próximo ao ferroduto do bairro Penha. Ele demonstra carência de afeto e de dignidade, tem dificuldade em se expressar e passa o tempo todo sentado sob a escuridão da estrutura de concreto. E uma das missões do Poder Público, dentro de suas competências, é tentar devolver o exercício dos valores de cidadania de um ser humano, quando parecem violados.

Vizinhos moradores próximos à ponte do rio Ponte Grande realizaram uma denúncia perto das 14h desta quarta-feira (24 de abril), junto ao serviço de Abordagem Social da Secretaria da Assistência Social e Habitação, cujo relato era de que ali naquele local um homem estava em situação de “moradia”, sob condições insalubres. Um rapaz sem comida, nenhuma roupa de reserva, sem banho, à mercê do risco de chuva forte, de contato com animais peçonhentos e de contaminação por doenças, além dos demais perigos de quem está na rua.

Recebidas as informações básicas de populares, a assistente social da Abordagem Social da Secretaria, situado dentro do Centro POP, Danielle Hoffman, e a estagiária do curso de graduação em Serviço Social, Marjorie Wolff, fizeram a primeira tentativa de aproximação no mesmo dia, convidando o haitiano Dieulius Derilus para acompanhar o trabalho e colaborar como intérprete na conversa, já que o imigrante aparentava ser haitiano pelas características físicas e de língua de nacionalidade. Pelo mínimo de interação, Dieulius desconfia que o rapaz seja de Senegal, na África, justamente por sua pronúncia. Ele reparou que o imigrante não fala em créole (crioulo haitiano), francês, espanhol ou inglês, idiomas praticados no Haiti.

Entretanto, o diálogo foi sem sucesso, pois o homem não esboça nenhum tipo de comunicação que não seja sair do espaço coberto abaixo da ponte e ir até os profissionais e dizer repetidamente em português quase nítido: “É isso mesmo?”, numa forma de dispensar a equipe e manifestar desinteresse por ajuda. “Nós viemos verificar a situação. Um dos vizinhos veio até aqui conosco ontem (quarta) e ajudou a chamar ele. A única fala eram ‘Três reais! cinco reais! sete reais!’, aí não conseguimos acesso”, pontua a assistente social, Danielle Hoffman. Sem abertura não é possível saber nada sobre o homem, nem nome, origem, documentos, família, condições de saúde, como viajou até a Serra, por onde passou, causas de sua estadia em Lages.

As servidoras não desistiram de ajudar o homem e nesta quinta-feira (25 de abril) retomaram a diligência na segunda visita. Seguiram até a ponte e questionaram novamente o estrangeiro. Mais uma vez houve resistência e a negativa de saída do local e acolhimento no Centro POP, serviço público da prefeitura que oferece refeições, banho, vestuário, grupo de apoio, suporte de psicólogo e assistente social e encaminhamento para colocar a documentação em dia, com funcionamento de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h, localizado na rua São Joaquim, bairro Copacabana, na casa do antigo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). O serviço de Abordagem Social presta atendimento 24 horas por dia, sete dias por semana. “Existe possibilidade de ele querer recomeçar sua vida aqui no município de Lages, mas tudo isto tem de partir da vontade espontânea dele, nada é feito com imposição”, esclarece Danielle. Diferentemente, no serviço de Acolhimento, situado na rua Frei Gabriel, é possível pernoite, bem como demais benefícios do Centro POP. “Se precisarem de mim de novo estarei a postos, pois sei bem como é a situação dele. Assim como precisei de auxílio, quero participar. Podem me ligar que eu venho dar minha contribuição”, adianta Dieulius, se referindo ao homem caso volte atrás na decisão de não receber a mão estendida para subir ao barranco e trocar ideias com a equipe da prefeitura.

A partir da recusa ao atendimento, a Secretaria da Assistência Social e Habitação procederá uma alternativa no caso da confirmação da nacionalidade senegalesa. Existe uma comunidade do Senegal em Vacaria (RS) que soube do caso através da imprensa. A ideia é convidar um representante para se deslocar a Lages e fazer a constatação. E assim a situação estará mais clara e outros próximos passos poderão ser dados. Além destes entraves, suspeita-se sinais de transtorno mental justamente pela ausência e/ou limitação de fala e vocabulário, palavras esboçadas em repetição e em razão de informações estabelecidas neste elo com vizinhos, que dizem ele estar ali há aproximadamente dois meses, mas somente recentemente a queixa chegou à prefeitura. Os contatos do serviço de Abordagem Social são 98406-2980 e 99921-1125, e aceita-se ligações a cobrar.

Um imigrante que topa ajudar porque se coloca no lugar de quem também sofre

O simpático e sorridente Dieulius Derilus saiu do Haiti, no Caribe, para tentar a sorte e uma vida nova em outro país, fugindo do sofrimento de um país arrasado pelas crises econômica e política. Aos 30 anos, está em Lages há três anos, cidade escolhida por ele e pela esposa Phanise para formar um novo lar junto à filhinha que está prestes a nascer, a lageana chamada Jevidsonn, que virá à luz daqui dois meses.

De avião, ele chegou da cidade de Gonaïves, quarta maior cidade do Haiti, em Rio do Sul, no Alto Vale do Itajaí. Depois optou por Lages. Em 2010 um terremoto catastrófico devastou o seu país, e não bastasse a avalanche de mortes, cerca de 200 mil, e destruição que derrubou a estabilidade e o sossego das famílias haitianas com as perdas humanas e desabrigados, posteriormente uma crise assolou a nação, ocasionando a formação de uma comunidade da parceria entre Haiti e Brasil, abrindo a fronteira diplomaticamente entre ambos os países. A solidariedade brasileira mais uma vez aflorou e Dieulius não pensou duas vezes antes de juntar o pouco que tinha e fincar raízes em um dos principais países da América Latina. Ficaram ho Haiti seu pai, mãe e a irmã.

Na maior cidade da Serra, primeiramente ele trabalhou na indústria Minusa Trator Peças e Material Rodante, na linha de acabamento, empresa onde ficou por 1,11 ano. Atualmente é profissional de cozinha na Rede Bella Pizza, no mesmo bairro onde mora, Copacabana, onde está com a esposa grávida em uma casa alugada. “A Minusa estava precisando de gente para trabalhar e soube da vaga de lá de Rio do Sul. Estou pensando em voltar para o Haiti, mas é difícil. Mas gosto de Lages, a primeira coisa boa é sua gente, o povo daqui não é racista e ajuda quem precisa de ajuda. Não é só o pessoal de Lages que é bom, é o Brasil, gosto muito do país. Temos que nos colocar no lugar do outro e saber que amanhã nós é que podemos estar em apuros e contar com a empatia alheia."