Histórias do Natal: criança da gaita-ponto hoje é rapaz, e um dos maiores nomes do Lages Melhor, só que no violão


O poder quase inexplicável da música e da dança para todos verem.

Por DANIELE DE MELO da ASCOM PML,
em Lages/SC 

📷 Fabricio Furtado / ASCOM PML
Ao palco do Natal Felicidade, no Largo da Catedral, sobem artistas amadores e profissionais todas as noites. Este é o lado que todos conhecem, a face que se revela aos espectadores, mas nos bastidores se revelam as histórias de dor, prazer, superação e vitória dos protagonistas destes espetáculos. As cortinas da arte e da cultura se abrem e escancaram a verdadeira cara de quem está por trás do personagem que brilha sob as luzes.

Vitor Gabriel Cavalheiro é um garoto de 13 anos e uma das estrelas que despontam no Projeto Lages Melhor, que levou mais uma das suas pedras preciosas ao palco do Natal Felicidade na noite desta sexta-feira (14 de dezembro). Ele escolheu o dedilhado do violão, tido como o instrumento mais popular do mundo.

O rapaz mora no bairro Várzea e faz as aulas de violão do Lages Melhor no núcleo do bairro Habitação. Íntimo do instrumento, cujas aulas já completaram cinco anos, destes, dois no Lages Melhor, lançado em 2017, uma iniciativa da Escola de Artes Elionir Camargo Martins, da Fundação Cultural de Lages (FCL). Vitor não é o único artista musical da família, tem um primo trompetista.

Ele tinha uma forte ligação com avô Clóvis, falecido cinco anos atrás, aos 53 anos. Ele deu para o neto uma gaita-ponto de brinquedo e mal sabia que ali brotava o gosto, embora ainda nebuloso, pelos sons das notas musicais. A inspiração foi tanta, e causou uma forte ligação com a alfabetização escolar e instrumental. “Aprendi a ler aos seis anos para poder fazer aula de violão. Ler as partituras, as letras.”

Daí em diante, o que era brincadeira virou coisa séria. Vitor toca violão, pandeiro, atabaque e berimbau, estes dois últimos por conta do grupo de capoeira do qual faz parte, o Magia da Bahia. “Mas meu carinho especial é pelo violão, pois é o que passo mais tempo tocando. É como se fosse um amigo”, confessa o guri, que pensa em ser policial no futuro por sentir afinidade com o Direito, quer ainda aprender guitarra e tocar numa banda.

Mas nem sempre tudo foram flores. Em 2014, com o temporal de granizo, Vitor perdeu seu primeiro violão, pelo qual tinha afeto por ter ganhado de um amigo, o seu Pedro. O instrumento estava em cima do guarda-roupa. “Outro violão, que minha mãe tinha comprado, se salvou porque estava na casa da minha vó, que tem casa de telha e não de fibrocimento como a minha era”, recorda.

O aluno do 8º ano da Escola de Educação Básica (E.E.B.) Zulmira Auta da Silva tem encontros às quartas das 14h às 15h no núcleo do Lages Melhor, além das aulas de street dance. Nada mal para quem tem só 13 anos. Ele dançou no Natal Felicidade na sexta, dia 7. Mil e uma possibilidades.

Sua mãe é diarista e o padrasto decorador com papel de parede. Com mais dois irmãos pequenos, de dois e cinco anos, ficaria difícil se tivesse de custear os cursos, mas o Município garante a gratuidade. “Se não fosse o Programa, teria de pagar. Eu adoro fazer parte disto tudo. A música é bálsamo, muda vidas, deixa a gente longe dos perigos”, analisa o violonista.

Um educador de mão cheia e coração comunitário

O professor Marcelo Bernhard dá aulas de violão em cinco núcleos do Lages Melhor: Habitação, São Paulo, São Francisco, Santa Mônica e Penha, que tiveram chance de se apresentar nesta sexta. Seus alunos têm entre sete e 70 anos. No palco, músicas tocadas e cantadas nos estilos sertanejo, pop rock, nativismo e gospel.

Há seis anos na Escola de Artes, Marcelo está nos polos do Lages Melhor desde 2017, quando foi estreado em Lages. “70% dos alunos não têm condições de comprar um violão. Custa de R$ 200 a R$ 250. A prefeitura adquiriu 25 violões para os alunos exercitarem. A gente intercala o uso entre os núcleos. Eu faço o plano de aula e com as apostilas tudo fica mais acessível.”

Os encontros acontecem uma vez por semana em cada polo e dura 50 minutos cada. “É um dia inteiro de dedicação, pois são várias turmas. Metade quer aprender para tocar na igreja. Chegam em casa depois da aula e já pegam o violão. Quem toca violão toca qualquer instrumento. Estão empolgados com a Festa do Pinhão de 2019, querem se apresentar no Palco Cultural. Para eles é extremamente significativo. Grande parte tem problemas de baixa estima, acham que não vão ultrapassar os limites da dificuldade e se surpreendem depois, é um dos poderes da música, mudar as pessoas”, comenta o empenhado instrutor, que afina os violões uma vez por semana. As seis cordas do violão são sensíveis, podem dilatar no calor e retrair no frio.  

Lages Melhor: a robustez do street dance e a calmaria do balé

📷 Daniele de Melo  / ASCOM PML

Os alunos dos cursos gratuitos de balé e street dance do Lages Melhor deram um “banho” de simpatia e carisma no palco do Natal Felicidade na noite desta sexta. O professor Ederson de Souza levou 50 dançarinos de sete a 14 anos dos bairros Penha e Vila Maria, com as coreografias de Black e White e Bang. O figurino foi adquirido com a renda de dois jantares beneficentes sociais. “A dança facilita o aprendizado e o estudo. A coreografia é um desafio à memorização. O street veio das Américas e é uma dança de bastante impacto e giro. É a antiga dança de rua e está no auge.” Ederson leciona duas vezes por semana no Penha (para os menores às terças das 10h30min às 11h30min, e às quintas para os maiores, das 14h às 15h) e uma vez no Vila Maria (quartas, das 16h às 17h). É uma hora de aula. Os grupos empolgaram o público, que dançava junto, batia palma e gritava como estímulo à juventude.

Em torno de 45 meninas e meninos do Penha e Vila Maria frequentam as aulas de balé da professora Amanda Atanásio Salomon. São as segundas e sextas pela manhã e tarde no Penha, e terças e quintas dia inteiro no Vila Maria. “O balé tem inúmeras valências, como ritmo, coordenação motora, sociabilidade, musicalidade. Desenvolve a força e a flexibilidade, amplia a visão de mundo. O Programa propicia acesso a uma cultura à qual muitas destas crianças não teriam.” No Largo da Catedral, os bailarinos coreografaram os temas Super Mário, Amizade, Sereia, Soldadinho e as Bailarinas e Mundo Mágico dos Unicórnios.

A autônoma Juliana Silva mora no Penha e assistiu à performance da filha Maria Júlia, de quatro anos. De vestido azul, coque no cabelo e maquiada, a garotinha era só sorrisos. “Ela que quis entrar na aula. É perto de casa e é mais fácil de a gente se adaptar aos horários. Eu até havia feito a matrícula no Colégio Rosa, mas assim que abriu o núcleo no bairro, corri fazer. O fato de ser de graça é uma vantagem enorme. O curso custa, em média, R$ 180 por mês. É bom para ela, pois incentiva, é um compromisso, convive em grupo, tem concentração, combate a timidez excessiva. Criança não deve ficar sem fazer nada, tem de preencher o tempo livre”, opina a mãe. Maria Júlia é delicada e pensa em ser médica quando adulta, mas até chegar lá seus pensamentos estão no mundo das sapatilhas.

Como todas as noites, o Natal Felicidade agraciou os visitantes com o espetáculo Anjos na Janela, nos sobrados do prédio da prefeitura e com a projeção mapeada na fachada da Catedral. Em frente ao palco, um espaço com cadeiras para acomodar idosos, gestantes, pessoas com crianças de colo, deficientes físicos e pessoas com dificuldade de locomoção. O Natal Felicidade 2018 é promovido pela prefeitura de Lages, através da Fundação Cultural de Lages (FCL) e Secretaria do Desenvolvimento Econômico e Turismo, entre outras pastas municipais, e com a parceria da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL). A Havan é a patrocinadora master, além dos patrocínios do Ministério da Cultura/Lei de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet), Klabin, GTS do Brasil, Supermercados Myatã e Martendal, Flex Relacionamentos Inteligentes, Idaza, American Oil e Caixa. Apoio da Polícia Militar.



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