De deputado ‘baixo clero’ a ‘mito’: conheça a trajetória do presidente eleito Jair Bolsonaro


Capitão reformado do Exército, deputado de 63 anos, conseguiu apoio com discurso conservador e de que não é político tradicional, embora tenha mandatos no Legislativo há 30 anos.

Por GUILHERME MAZUI e FERNANDA CALGARO
do G1,
em Brasília/DF

📷 O presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), discursa na Câmara dos Deputados, onde permaneceu por sete mandatos consecutivos — Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Capitão reformado do Exército, deputado federal desde 1991 e dono de uma extensa lista de declarações polêmicas, Jair Messias Bolsonaro materializou em votos o apoio que cultivou e ampliou a partir das redes sociais.

Ao catalisar, com um discurso conservador, o sentimento contrário à corrupção, ao PT e ao próprio sistema político, o candidato do PSL foi eleito neste domingo (28), aos 63 anos, presidente da República.

Embora esteja na política há três décadas, ele conseguiu vender a imagem de que não é um político tradicional.

Apelidado de “mito” pelos apoiadores, mas considerado retrógrado por opositores em razão de exaltar a ditadura e de falas preconceituosas sobre mulheres, homossexuais e negros, o militar reformado dividiu paixões e opiniões durante a campanha na qual superou a estrutura pequena do PSL, a falta de alianças com grandes legendas e um atentado.

Em 6 de setembro, Bolsonaro era carregado nos ombros por seguidores em Juiz de Fora (MG) quando uma facada o perfurou no abdômen. Submetido a cirurgias, passou três semanas internado e concentrou a campanha nas redes sociais.

Vitorioso no segundo turno, tornou-se o primeiro militar eleito presidente da República desde a redemocratização do país, há quase 34 anos.

Infância no interior paulista

Eleito sete vezes deputado federal pelo Rio de Janeiro, Jair Bolsonaro cresceu no interior de São Paulo.

Um dos seis filhos do casal Percy Geraldo e Olinda, nasceu em 21 de março de 1955 na cidade de Glicério, mas foi registrado em Campinas. A data, a sugestão de um vizinho e a paixão do pai pelo Palmeiras definiram o nome Jair.

“Quando nasci, 21 de março, o vizinho insistiu com o meu pai, palmeirense, que o meu nome deveria ser Jair, pois ele acabara de ouvir no rádio que era também aniversário do Jair Rosa Pinto, da seleção e jogador do Palmeiras”, contou o também palmeirense Bolsonaro em seu perfil no Facebook.

Dentista prático, o pai do futuro presidente passou com a mulher e os filhos por várias cidades até se fixar em Eldorado, município onde a família ainda vive (Percy faleceu na década de 1990), distante cerca de 250 km de São Paulo.

Em entrevista à revista “Crescer”, em 2015, Olinda relatou que o filho era um rapaz "humilde", "manso" e "reservado", que não era dado a "falar besteira".

O garoto magro e de olhos azuis viveu na pacata cidade do Vale do Ribeira entre estudos, jogos de futebol e pescarias.

Foi em Eldorado que Bolsonaro, aos 15 anos, resolveu seguir a carreira na caserna. Em 1970, Carlos Lamarca, que tinha desertado do Exército, comandou ações na região contra a ditadura.

Tropas chegaram à região para capturar o guerrilheiro, e Bolsonaro, segundo relata em entrevistas e discursos, ajudou os militares nas buscas com informações sobre as redondezas.

📷 Durante a campanha, Jair Bolsonaro foi esfaqueado durante um ato em Juiz de Fora (MG) — Foto: Fábio Morra/Estadão Conteúdo

Carreira no Exército

Decidido a entrar para o Exército, Bolsonaro trocou São Paulo pelo Rio de Janeiro. Concluiu em 1977 o curso da Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), em Resende (RJ).

Com aptidão para esportes, como o atletismo, fez o curso da Escola de Educação Física do Exército.

Contemporâneo de Bolsonaro, o deputado federal Alberto Fraga (DEM-DF), policial militar, relembra a amizade que começou durante o curso e se manteve ao longo dos anos quando se reencontraram na Câmara dos Deputados.

Fraga conta que Bolsonaro era um “baita de um corredor” e se destacava no pentatlo militar, modalidade esportiva que inclui corrida, tiro com rifle e lançamento de granada (não explosiva), o que rendeu a ele o apelido de “Cavalo” ou “Cavalão”.

O amigo o descreve como uma pessoa “correta” e preocupada com os demais, que “brigava com os colegas do Exército para defender os policiais militares” que também faziam o curso.

“Teve um episódio interessante. Na travessia marítima Flamengo-Urca, eu vinha nadando junto com ele, e um colega teve cãibra de abdômen no meio da travessia. Eu o vi gritando e nadei até perto dele, o Bolsonaro também chegou e o ajudamos até chegar o barco [para tirá-lo da água]. Ele sempre foi um bom parceiro”, conta Fraga sobre a tradicional prova que marca o término do curso.

Depois, Bolsonaro fez cursos de salto na Brigada Paraquedista do Rio e de mergulho autônomo no Corpo de Bombeiros do Rio.

📷 Jair Bolsonaro (à esquerda) no dia de sua formatura pela Academia Militar das Agulhas Negras — Foto: Divulgação/Facebook Jair Bolsonaro

Artigo e eleição para vereador

No Exército, Bolsonaro chegou ao posto de capitão. Segundo o general Hamilton Mourão (PRTB), eleito vice-presidente da República na chapa dele e com quem conviveu quando estava na ativa, Bolsonaro demonstrava “coragem moral” para sustentar opiniões e era “determinado”.

Apesar dos elogios, foi um ato de insubordinação que garantiu ao capitão notoriedade na caserna ao publicar, em 1986, o artigo intitulado “O salário está baixo” na revista “Veja”.

“Sou um cidadão brasileiro cumpridor dos meus deveres, patriota e portador de uma excelente folha de serviços. Apesar disso, não consigo sonhar com as necessidades mínimas que uma pessoa do meu nível cultural e social poderia almejar”, escreveu Bolsonaro.

O texto rendeu 15 dias de prisão ao militar por indisciplina, conforme o jornal “O Globo”.

Em 1987, outra reportagem de “Veja” sustentou que Bolsonaro e um colega elaboraram um plano para explodir bombas a fim de forçar reajuste salarial à tropa.

O capitão respondeu a processo, foi condenado em primeira instância, mas acabou considerado “não culpado” pelo Superior Tribunal Militar (STM) em 1988, segundo o jornal “O Estado de S. Paulo”.

No mesmo ano do julgamento, a defesa por melhores salários aos militares ajudou Bolsonaro a ter seu primeiro êxito na urna: o mandato de vereador no Rio. Com a eleição, o capitão passou à reserva no Exército e começou oficialmente a carreira política.

📷 O deputado Jair Bolsonaro bate-boca no plenário da Câmara com a deputada Maria do Rosário — Foto: Fernando Chaves/PSC Nacional

No Parlamento

A trajetória de Jair Bolsonaro como vereador foi curta. Em 1990, dois anos depois de eleito, o militar da reserva conquistou o primeiro dos sete mandatos consecutivos de deputado federal – no período, passou pelos partidos PDC, PPR, PPB, PTB, PFL, PP, PSC e PSL.

Bolsonaro tomou posse em 1991 na Câmara dos Deputados. Da tribuna, criticou presidentes pelo tratamento conferido às Forças Armadas, cobrou reajustes salariais, ressaltou feitos da ditadura militar e defendeu o controle de natalidade como forma de combater a miséria.

O deputado também se acostumou a bradar contra questões de direitos humanos, entrou em uma cruzada a favor do voto impresso nas eleições com a justificativa de evitar eventuais fraudes com as urnas eletrônicas, e colecionou bate-bocas com parlamentares de partidos de esquerda.

Bolsonaro ainda foi um dos principais críticos de um projeto voltado ao público adolescente que o Ministério da Educação estudava adotar nas escolas para discutir a diversidade e combater a homofobia.

“A relação entre um homem e uma mulher já não é mais normal. Aonde vamos parar?”, reclamou em 2011.

📷 O então deputado Jair Bolsonaro durante discussão com ativista que participava de manifestação contra o parlamentar — Foto: Luis Macedo/Câmara dos Deputados

Desempenho

Os discursos inflamados e controversos na tribuna não refletiram em influência na Câmara.

Considerado um deputado do “baixo clero”, o parlamentar tentou por quatro vezes presidir a Câmara. Em todas, obteve votações inexpressivas no colégio eleitoral composto por 513 deputados:

·        Dois votos em 2005, na disputa que elegeu Severino Cavalcanti (PP-PE)
·        Nenhum voto, também em 2005, em uma nova eleição após a renúncia de Severin.
·        Nove votos em 2011, na vitória de Marco Maia (PR-RS)
·        Quatro votos em 2017 na reeleição de Rodrigo Maia (DEM-RJ)

Como deputado, Bolsonaro votou a favor dos impeachments dos presidentes Fernando Collor (1992) e Dilma Rousseff (2016) e pelo prosseguimento das duas denúncias apresentadas pela Procuradoria Geral da República (PGR) contra o atual presidente Michel Temer (2017).

Ao votar pelo afastamento de Dilma, Bolsonaro causou polêmica ao citar o coronel do Exército Carlos Brilhante Ustra, reconhecido na primeira instância da Justiça como torturador no período da ditadura militar (1964-1985), dizendo que ele era o “terror” de Dilma”.

Na gestão de Temer, o parlamentar votou a favor da reforma trabalhista e da emenda que estabeleceu o teto de gastos.

No passado, segundo reportagem do jornal “O Globo”, não teve o perfil liberal que propagou na campanha: votou contra o Plano Real, contra a quebra dos monopólios do petróleo e das telecomunicações e contra as reformas administrativa e da Previdência.

Em quase três décadas como deputado, Bolsonaro não se notabilizou por articular acordos nos bastidores e por emplacar projetos. Aprovou dois que viraram lei:

·        Projeto que estendia o prazo para isenção do Imposto sobre Produto Industrializado (IPI) para bens de informática;
·        Projeto que autorizava o uso da fosfoetanolamina, a “pílula do câncer”, cuja pesquisa foi suspensa por não ter eficácia comprovada em testes.

📷 Jair Bolsonaro, ao lado do filho Eduardo, durante sessão que relembrou o dia 31 de março de 1964, véspera do golpe que deu origem à ditadura militar — Foto: Antonio Augusto/Câmara dos Deputados

Polêmicas

Jair Bolsonaro despontou na corrida presidencial a partir de um discurso liberal na economia e conservador nos costumes, voltado à moralidade e ao patriotismo, com críticas a “comunistas” e ao que define como tentativa de doutrinar crianças nas escolas.

O presidente eleito gosta de reafirmar que é heterossexual e cristão (em 2016 foi batizado no Rio Jordão, em Israel), defende a propriedade privada, penas duras a criminosos e a facilitação do porte de armas – transformou em uma das suas marcas de campanha o gesto com os dedos das mãos em que imita pistolas.

“Com ele, não tem politicamente correto. As pessoas podem estranhar, mas enxergam que ele é franco e não tem medo de se posicionar”, afirma o presidente licenciado do PSL Luciano Bivar, que se reelegeu deputado nesta eleição.

De tempos em tempos, a língua afiada e as atitudes do parlamentar renderam representações no Conselho de Ética da Câmara ou ações na Justiça. Ele foi alvo de quatro processos desde a instalação do conselho.

Um dos embates mais emblemáticos ao longo da sua trajetória na Câmara foi com a deputada Maria do Rosário (PT-RS).

Em 2014, Bolsonaro repetiu da tribuna ofensas contra a parlamentar dizendo que só não a estuprava porque ela “não merecia”.

Ele foi condenado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) a pagar uma indenização por danos morais. Ele também é réu no Supremo Tribunal Federal (STF) por apologia ao crime de estupro e injúria.

Ao G1, Maria do Rosário relembrou as provocações rotineiras que ele fazia aos demais parlamentares, especialmente os de partidos mais à esquerda.

“Ele tem algumas limitações intelectuais porque não consegue defender nenhuma ideia com coerência do começo ao fim. Era sempre através de grito ou de empurrão”, diz.

📷 O então deputado federal Jair Bolsonaro durante discurso no plenário da Câmara — Foto: Luis Macedo/Câmara dos Deputados

Filhos na política

Bolsonaro é descrito na vida pessoal como um sujeito “família” e “brincalhão”, distante do estilo durão dos embates políticos.

Tem cinco filhos com três companheiras diferentes. A atual mulher se chama Michelle, com quem o político teve a única filha, Laura.

Conforme relatos de aliados também indica que o capitão tem poucas pessoas em seu círculo de confiança, com espaço de destaque para os três filhos do primeiro casamento: Carlos, Flávio e Eduardo.

Os três se tornaram políticos. Carlos é vereador no Rio de Janeiro, Flávio é deputado estadual e se elegeu senador pelo Rio, e Eduardo conquistou o segundo mandato de deputado federal por São Paulo com a maior votação do país – 1,8 milhão de votos, recorde para uma eleição de deputado federal.

Os três filhos ajudaram o pai a traçar sua estratégia política e digital. Por meio das redes sociais e de grupos de mensagem no WhatsApp, Bolsonaro virou “Bolsomito” e consolidou a imagem de candidato de direita com uma linguagem simples e direta, divulgada em cards, gifs e vídeos compartilhados em série.

Ao contrário de outros candidatos que reforçam a comunicação digital apenas em período eleitoral, Bolsonaro manteve atenção constante nas redes, estratégia que resultou em uma legião de seguidores.

Na véspera do segundo turno, o presidente eleito tinha 5 milhões de seguidores no Instagram, ante 838 mil do seu adversário Fernando Haddad (PT) e 617 mil do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Bolsonaro ainda acumulava 7,9 milhões de seguidores no Facebook e outros 1,85 milhão no Twitter – Haddad tinha 1,5 milhão no Facebook e 838 mil no Twitter.

Em campanha há três anos

A campanha que levou Jair Bolsonaro à Presidência da República teve início há três anos, sob olhares descrentes de políticos que agora o aplaudem.

Recém-reeleito para o sétimo mandato, o deputado percorreu o país, foi recepcionado em aeroportos lotados, realizou carreatas, estampou camisetas e adesivos, posou para “selfies” com eleitores e proferiu palestras.

Para o general Hamilton Mourão, Bolsonaro percebeu o recado das urnas em 2014, após a vitória apertada de Dilma Rousseff (PT) sobre Aécio Neves (PSDB) na eleição presidencial.

“A eleição passada mostrou que a onda esquerdista estava se esgotando e que as pessoas queriam um novo jeito de fazer política”, relatou o general ao G1.

O desempenho de Bolsonaro na urna reforçou a impressão. Ele saltou de 120,6 mil votos em 2010 para 464,5 mil em 2014, sendo o deputado federal mais votado do Rio de Janeiro.

Animado, o parlamentar decidiu que seria candidato independente do seu partido. Em 2014, ele anunciou da tribuna da Câmara que colocava seu nome à disposição do PP para concorrer à Presidência com a “cara da direita”, mas foi ignorado pela própria legenda, que apoiou a campanha de Dilma.

“Qual a cara da direita, que é a minha cara? É a defesa da redução da maioridade penal. É uma política de planejamento familiar. É a defesa da família contra o kit gay. É a revogação do Estatuto do Desarmamento. É o fim da indústria de demarcação de terras indígenas. É o respeito e a valorização das nossas Forças Armadas”, disse Bolsonaro na oportunidade.

O plano presidencial passou a ser revelado em 2015 para colegas, que não levavam a sério a viabilidade da empreitada, já que a polarização entre PT e PSDB parecia sólida. O general Mourão foi procurado à época.

“Lá por 2015 ele disse que poderia precisar de mim em algum momento, pois queria um vice de absoluta confiança. Fiquei paradinho”, contou o general, que foi para a reserva do Exército em 2018 e virou o vice da chapa de Bolsonaro após a desistência de outros nomes.

Ciente de que seria deixado de lado pelo PP outra vez, Bolsonaro migrou para o PSC e, finalmente, chegou ao PSL, partido de pouca expressão que teve apenas um deputado eleito em 2014 e, em 2018, graças à popularidade de Bolsonaro, conseguiu eleger uma bancada com 52 deputados.

Equipe

Cotado para assumir a Casa Civil no novo governo, o deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS) aderiu ao projeto em 2017 e integrou o núcleo duro da campanha, junto com os filhos de Bolsonaro, o general da reserva do Exército Augusto Heleno, o advogado Gustavo Bebbiano, que interinamente preside o PSL, e o economista Paulo Guedes, espécie de embaixador da candidatura junto ao mercado e que deverá chefiar a equipe econômica.

Para Onyx, o impeachment de Dilma Rousseff, que encerrou 13 anos de gestão do PT em 2016, reforçou a imagem de Bolsonaro junto ao eleitor como a antítese da esquerda brasileira, ponto reiterado na campanha eleitoral.

Após o Tribunal Superior Eleitoral barrar a candidatura de Lula com base na Lei da Ficha Limpa e o PT lançar Fernando Haddad, Bolsonaro assumiu a liderança das pesquisas de intenção de voto. Abertas as urnas em dois turnos, encerrou o ciclo de quatro vitórias consecutivas do PT.




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