EUA ampliam sanções à Venezuela e bloco regional critica eleição de Maduro


Entre as 21 sanções, está o bloqueio de ativos da principal fonte de receita chavista, a petrolífera estatal PDVSA.

Por CLÁUDIA TREVISAN, de Washington/EUA;
RODRIGO CAVALHEIRO, em Caracas/VEN, e LU AIKO OTA,
em Brasília/DF

Os EUA anunciaram nesta segunda-feira, 21, sanções que bloqueiam ativos da Venezuela no país, incluindo as propriedades da principal fonte de receita chavista, a petrolífera estatal PDVSA. A medida foi uma resposta à reeleição de Nicolás Maduro no domingo, em uma eleição considerada fraudulenta pelo candidato opositor Henri Falcón e pela maior parte da comunidade internacional.

📷 Gabriel Morales, venezuelano que pretende
entrar no Brasil, na rodoviária em Caracas. (Foto:
Rodrigo Cavalheiro / Estadão
As sanções americanas proíbem a compra de ativos estatais do país ou de créditos que Caracas tenha para receber no futuro. Elas foram acompanhadas de compromissos de outros países da região de aumentar a fiscalização e a troca de informações sobre o uso de seu sistema bancário por pessoas ligadas ao governo Maduro.

O Grupo de Lima, que inclui Brasil e outros 13 países, não reconheceu a votação e chamou seus embaixadores para consultas, em sinal de protesto. Os integrantes anunciaram cinco medidas na área financeira que deverão bloquear o comércio e investigar suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e financiamento ao terrorismo. O objetivo é que essas ações levem ao eventual congelamento de ativos ou a restrições financeiras.

Eles disseram que reforçarão sua ação na Organização dos Estados Americanos (OEA) para suspender a Venezuela por descumprimento da cláusula democrática.

Assessores da Casa Branca afirmaram que as sanções têm o objetivo de evitar que o regime liquide créditos futuros ou bens estatais em troca de dinheiro vivo imediato. Mas atividades na Venezuela nesse setor já estão restritas em razão de vitória judicial da Conocophillips, que em maio conseguiu arrestar tanques de petróleo venezuelano para garantir o pagamento de uma dívida de US$ 2 bilhões.

A hipótese de que o próximo passo americano sejam sanções diretas à atividade petrolífera venezuelana para pressionar o chavismo não é bem-vista por líderes opositores do país. O presidente da Assembleia Nacional, Omar Barbosa, disse ao Estado não concordar com a ideia.

“É preciso evitar medidas que atinjam o petróleo, que não pertence ao governo, mas sim a todos os venezuelanos”, disse Barbosa. O Congresso teve os poderes tomados no ano passado por uma Constituinte chavista.

Barbosa defendeu a estratégia opositora de boicotar a eleição, principal razão para a abstenção de mais de 53%. Maduro venceu com 68% dos votos. “Se todos fossem votar, Maduro teria conseguido 10 milhões em vez de 6 milhões”, afirmou, referindo-se ao controle chavista do Conselho Nacional Eleitoral.

Para o economista venezuelano Asdrúbal Oliveros, as novas sanções, embora não afetem diretamente o comércio de petróleo, terão algum impacto na população. “Com essas sanções, a venda de petróleo ainda pode ser feita. Mas se vierem sanções ao comércio do produto, as importações em geral serão reduzidas. Isso ampliará a escassez e afetará em cheio a população”, avaliou Oliveros, que prevê problemas para o fluxo de caixa do governo com as medidas de segunda-feira, 21. “São propriedades do Estado venezuelano, como refinarias da Citgo (filial americana da PDVSA)”, afirmou.

O governo russo atacou a “interferência externa” nas eleições venezuelanas e pediu a Maduro que realize um “diálogo nacional” para superar a crise. Aliado de Caracas e com joint ventures fechadas com os venezuelanos no setor do petróleo, Moscou elogiou Maduro.

Segundo o Kremlin, Putin desejou a Maduro “uma boa saúde e sucesso na solução de desafios sociais e econômicos que o país enfrenta”. Moscou afirmou que as ações de vizinhos ou dos EUA em relação a Caracas são “precedentes perigosos”.

A China, onde vigora um regime de partido único, alertou que não aceitará a ingerência em assuntos domésticos venezuelanos. O Irã também defendeu a validade da reeleição de Nicolás Maduro.

Rodoviária é rota de fuga mais barata para o exterior. Por US$ 2, o decepcionado com a reeleição de Nicolás Maduro pode percorrer os 1.200 quilômetros que separam Caracas de Santa Elena de Uairén, na fronteira com o Brasil. A viagem dura de 15 a 24 horas. Gabriel Morales, de 39 anos, estava na segunda-feira, 21, na rodoviária “del Oriente”, de onde partem os veículos para o leste do país. Mesmo sendo de Maracaibo, ele quer morar no Brasil. Viveu em 2016 em Boa Vista e voltou à Venezuela para ajudar a família. Agora, pretende levar a mulher, a filha de 1 ano e a mãe, que após da reeleição de Maduro se convenceu a partir.

“Na Venezuela, para se conseguir um litro de leite (o salário mínimo é de US$ 3) é preciso ser criminoso. E o Brasil é melhor que a Colômbia, valoriza o trabalho e a produção nacional”, disse o homem, preparador de lanches, faxineiro, mecânico, eletricista, encanador e adestrador de cães.

Perto dali, sentada no chão, Stefani (não quis dizer o sobrenome), de 26 anos, esperava a amiga Jennifer Montes, de 28 anos, comprar as passagens. O resultado da eleição foi decisivo para Stefani deixar o filho de 8 anos com a mãe em Caracas. A jovem abandonou a escola ao engravidar, aos 18 anos. “O Brasil ainda é Venezuela, né?”, questionou Stefani. Jennifer explicou se tratar de outro país. “Mas é Venezuela?”, insistiu Stefani. “Não, é outro país!”, rebateu Jennifer. “Ahhh...”, respondeu Stefani. /

*Colaborou Jamil Chade




Nenhum comentário